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Lula: uma caminhada de quatro tentativas até o palácio do planalto

Antes de chegar à Presidência, Luiz Inácio Lula da Silva enfrentou derrotas, mudou estratégias, ampliou alianças e disputou quatro eleições presidenciais. A história de sua chegada ao poder se confunde com a própria redemocratização do Brasil.

Texto: Priscila Fernandes

A história política de Luiz Inácio Lula da Silva, não começou no Palácio do Planalto. Muito antes de ocupar a Presidência da República, o então líder sindical do ABC paulista precisou construir, passo a passo, um caminho que o levaria a se tornar uma das principais figuras da política brasileira. Foram anos de mobilização sindical, fundação de partido, campanhas eleitorais, derrotas, mudanças de discurso e de alianças. Entre a primeira candidatura à Presidência, em 1989, e a vitória que o levou ao cargo, em 2002, passaram-se 13 anos. Nesse período, Lula deixou de ser apenas uma liderança do movimento sindical para se transformar em um dos principais nomes da oposição nacional. A caminhada ainda teria novos capítulos. Depois de dois mandatos presidenciais, uma tentativa frustrada de retornar ao cargo em 2018 e um período marcado por prisão e decisões judiciais, Lula voltou a disputar a Presidência em 2022. Aos 77 anos, venceu novamente uma eleição e retornou ao Palácio do Planalto para seu terceiro mandato. Sua trajetória eleitoral, portanto, é também a história de um político que tentou chegar à Presidência mais de uma vez, aprendeu com as derrotas e modificou sua estratégia até encontrar, em 2002, o caminho para a vitória.

1989: A PRIMEIRA DISPUTA PELA PRESIDÊNCIA

A eleição presidencial de 1989 tinha um significado especial. Era a primeira eleição direta para presidente depois de quase três décadas. O país voltava às urnas para escolher diretamente seu presidente, e Lula surgiu como uma das principais opções do campo progressista.

© picture-alliance/dpa, G. Stoll

Aos 44 anos, o ex-metalúrgico disputou a eleição pelo PT, apresentando-se como representante dos trabalhadores e de uma nova força política que buscava romper com as estruturas tradicionais. A disputa foi marcada por grande fragmentação. Diversos candidatos concorreram no primeiro turno, entre eles nomes que posteriormente se tornaram protagonistas da política brasileira.

Lula terminou a primeira etapa na segunda colocação e avançou para o segundo turno contra Fernando Collor de Mello. Foi uma campanha intensa e polarizada. De um lado, Collor apresentava-se como uma alternativa de renovação e combate aos chamados “marajás”.

Do outro, Lula representava o crescimento do PT e de um movimento político ligado aos trabalhadores, aos sindicatos e aos movimentos sociais. A vitória, porém, ficou com Collor. Lula perdeu sua primeira eleição presidencial, mas o resultado teve outro efeito: consolidou seu nome nacionalmente.

O candidato derrotado deixava de ser apenas uma liderança do ABC e passava a ocupar definitivamente um lugar entre as principais lideranças políticas do país. A derrota também ensinaria uma das primeiras lições eleitorais de sua trajetória: para vencer uma eleição nacional, seria necessário ampliar o diálogo para além de sua base tradicional.

1994: A DISPUTA EM UM BRASIL TRANSFORMADO

Cinco anos depois, Lula voltou a disputar a Presidência. O cenário, entretanto, era completamente diferente. O Brasil havia passado por mudanças profundas.

O impeachment de Fernando Collor, o governo de Itamar Franco e a implantação do Plano Real alteraram o ambiente político e econômico do país. O principal adversário de Lula era Fernando Henrique Cardoso, então ministro da Fazenda e um dos responsáveis pela condução do Plano Real. A estabilização da economia modificou a percepção do eleitorado.

© Getty Images/AFP – S. Corza – Brasilien: Präsidentschaftskandidat Luiz Inácio Lula da Silva, 1994.

A inflação, que durante anos havia sido um dos principais problemas da população, começou a perder força, e Fernando Henrique passou a ser identificado com a nova realidade econômica. Lula entrou na disputa defendendo seu projeto político e social, mas encontrou um adversário fortalecido pela popularidade do Plano Real. Dessa vez, não houve segundo turno.

Fernando Henrique Cardoso foi eleito ainda no primeiro turno. Lula terminou novamente derrotado, mas o PT já havia crescido. A candidatura de 1994 mostrou que o partido possuía uma estrutura nacional e que seu principal líder continuava sendo uma alternativa concreta para a Presidência.

A derrota, entretanto, revelou outro desafio: Lula precisava convencer uma parcela maior do eleitorado de que o PT estava preparado para administrar o país.

1998: A TERCEIRA TENTATIVA

Em 1998, Lula voltou às urnas. Era sua terceira candidatura presidencial desde a redemocratização. Dessa vez, o adversário era novamente Fernando Henrique Cardoso, que buscava a reeleição.

O país vivia um período de estabilidade monetária, mas enfrentava dificuldades econômicas. Ainda assim, Fernando Henrique conseguiu manter vantagem suficiente para vencer no primeiro turno. Lula novamente não chegou ao segundo turno.

© picture alliance/AP Photo/R. Gostoli – Luiz Inácio Lula da Silva durante a campanha presidencial de 1998, ao lado de aliados políticos.

Foi sua terceira derrota consecutiva em eleições presidenciais. Mas havia uma diferença importante em relação à primeira campanha. O PT já não era um partido novo.

Lula já era uma liderança consolidada e havia construído uma rede política nacional. A experiência acumulada nas campanhas anteriores começou a produzir mudanças na maneira como o partido se apresentava ao eleitor. A eleição de 1998 seria a última derrota de Lula em uma disputa presidencial antes de sua primeira vitória.

2002: QUANDO A ESTRATÉGIA MUDOU

Quatro anos depois, Lula tentou novamente. Mas o candidato que entrou na disputa em 2002 era, em vários aspectos, diferente daquele que havia concorrido em 1989. O PT havia amadurecido.

Lula também. Depois de três derrotas, a campanha passou a trabalhar com uma estratégia de ampliação do diálogo com setores da sociedade que anteriormente demonstravam resistência ao partido. Um dos símbolos dessa mudança foi a escolha do empresário e senador mineiro José Alencar como candidato a vice-presidente.

A aliança representava uma tentativa clara de ampliar a base eleitoral e aproximar Lula de setores empresariais e do eleitorado mais moderado. A própria comunicação da campanha também mudou. A imagem do candidato foi trabalhada de maneira mais conciliadora, buscando apresentar Lula não apenas como líder de oposição, mas como alguém preparado para governar.

O famoso discurso de mudança continuava presente, mas acompanhado de uma preocupação maior com estabilidade econômica e responsabilidade política. O resultado foi diferente. Lula terminou o primeiro turno na liderança e avançou para a segunda etapa contra José Serra, candidato apoiado pelo governo Fernando Henrique Cardoso.

Dessa vez, a vitória veio. Em 27 de outubro de 2002, justamente no dia em que completava 57 anos, Lula foi eleito presidente da República. Depois de três tentativas frustradas, o metalúrgico que havia surgido no movimento sindical chegava ao cargo mais importante do país.

O PRIMEIRO MANDATO E A REELEIÇÃO

No primeiro mandato, Lula precisou transformar o discurso de campanha em administração. A política econômica manteve alguns pilares de estabilidade, enquanto o governo ampliou programas sociais e criou novas políticas públicas. Entre as principais marcas do período esteve a consolidação do Bolsa Família, programa de transferência de renda que passou a atender milhões de famílias.

© O. Kissner/AFP/Getty Images – Luiz Inácio Lula da Silva durante sua posse como presidente da República, em Brasília, em 1º de janeiro de 2003.

A melhora dos indicadores sociais, o crescimento do emprego e a expansão do consumo ajudaram a fortalecer a popularidade do governo. Mas o primeiro mandato também foi marcado por uma das maiores crises políticas enfrentadas pelo PT: o escândalo do mensalão. Apesar da crise, Lula conseguiu manter força eleitoral.

Em 2006, voltou a disputar a Presidência. Dessa vez, chegou ao segundo turno contra Geraldo Alckmin, então candidato do PSDB. Lula venceu e conquistou seu segundo mandato.

O resultado confirmou uma transformação importante: o candidato que havia sido derrotado três vezes agora era um presidente reeleito.

2010: A SAÍDA DO PLANALTO E A ESCOLHA DE DILMA

A Constituição não permitia que Lula disputasse um terceiro mandato consecutivo. Por isso, em 2010, o PT precisou escolher um novo nome para representar o projeto político construído durante seus dois governos. A escolhida foi Dilma Rousseff, então ministra-chefe da Casa Civil.

Lula participou ativamente da campanha e conseguiu transferir parte de sua popularidade para a candidata. Dilma venceu José Serra no segundo turno e tornou-se a primeira mulher eleita presidente do Brasil. Lula deixava o Palácio do Planalto com altos índices de popularidade e com o PT novamente no comando do governo federal.

Crédito: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil. – Dilma Rousseff e Luiz Inácio Lula da Silva durante a Convenção Nacional do PT, em Brasília, em 21 de junho de 2014.

Sua trajetória parecia, naquele momento, consolidada como uma das mais bem-sucedidas da política brasileira. Mas os anos seguintes mudariam completamente esse cenário.

A CRISE POLÍTICA E O AFASTAMENTO DAS URNAS

A partir de 2014, o Brasil entrou em um período de forte instabilidade política. A Operação Lava Jato, iniciada naquele ano, atingiu partidos e lideranças de diferentes campos políticos, incluindo o PT. Lula passou a ser investigado e posteriormente condenado em processos relacionados à corrupção e lavagem de dinheiro.

Em 2018, quando se preparava para disputar novamente a Presidência, o ex-presidente foi preso e tornou-se inelegível naquele momento. A eleição daquele ano aconteceu sem Lula na disputa. O PT lançou Fernando Haddad como candidato, mas ele foi derrotado por Jair Bolsonaro no segundo turno.

Luiz Inácio Lula da Silva e Sérgio Moro, figuras centrais dos processos da Operação Lava Jato.

A ausência de Lula alterou profundamente aquela eleição. O político que havia disputado quatro eleições presidenciais e vencido duas não poderia, naquele momento, participar da disputa.

A VOLTA AO JOGO

Em 2019, Lula deixou a prisão. Dois anos depois, em 2021, o Supremo Tribunal Federal anulou as condenações que impediam sua candidatura, por questões relacionadas à competência da Justiça Federal de Curitiba para julgar os casos. Com as decisões, Lula recuperou os direitos políticos e voltou a estar apto a disputar eleições.

A possibilidade de retornar à corrida presidencial transformou novamente o cenário político brasileiro. Lula passou a construir uma ampla frente política para 2022. O objetivo não era apenas recuperar o eleitorado tradicional do PT, mas reunir forças de diferentes campos em torno de sua candidatura.

Crédito: Ricardo Stuckert. – Luiz Inácio Lula da Silva e Geraldo Alckmin durante jantar em São Paulo, em 19 de dezembro de 2021. O encontro marcou uma das primeiras aparições públicas da aproximação política que posteriormente resultaria na chapa presidencial de 2022.

O escolhido para vice-presidente foi justamente Geraldo Alckmin, seu antigo adversário nas eleições de 2006 e 2018 e uma das principais lideranças do PSDB por décadas. A aliança era simbólica. O homem que havia representado uma das maiores forças de oposição ao PT agora estava ao lado de Lula na tentativa de derrotar Jair Bolsonaro.

2022: A ELEIÇÃO MAIS DISPUTADA

A eleição de 2022 foi marcada por forte polarização. Lula e Jair Bolsonaro chegaram ao segundo turno em uma das disputas mais acirradas da história recente do país. O resultado foi apertado, mas Lula venceu.

Lula e Jair Bolsonaro chegaram ao segundo turno em 2022, em uma das eleições mais acirradas da redemocratização. Lula venceu com 50,90% dos votos válidos, contra 49,10% de Bolsonaro.

Com mais de 60 milhões de votos, tornou-se o primeiro presidente brasileiro eleito para três mandatos por meio do voto direto. Em 1º de janeiro de 2023, voltou ao Palácio do Planalto. A cena tinha forte significado político: 20 anos depois de sua primeira posse, Lula retornava ao mesmo lugar de onde havia saído em 2010.

Era também o desfecho de uma trajetória eleitoral marcada por quatro tentativas de chegar à Presidência, duas vitórias, três derrotas consecutivas, um período fora das urnas e uma nova vitória depois de mais de uma década.

DO ABC AO PLANALTO

A história política de Lula ganhou um novo capítulo neste domingo, 16 de agosto de 2026. Mais de quatro décadas depois de começar a construir sua liderança entre os metalúrgicos do ABC, o presidente voltou ao Estádio Municipal 1º de Maio, em São Bernardo do Campo, para dar oficialmente a largada à campanha pela reeleição. A escolha do local não foi casual.

Conhecido historicamente como Vila Euclides, o estádio foi palco das grandes assembleias dos metalúrgicos do ABC no final dos anos 1970 e início dos anos 1980. Foi ali que Lula, então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, ganhou projeção nacional como uma das principais lideranças do movimento dos trabalhadores durante o período final da ditadura militar. Por isso, o primeiro ato da campanha de 2026 carregou uma forte dose de simbolismo.

Foto: Ricardo Stuckert- 16.08.2026 – Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante o lançamento oficial de sua campanha no Estádio da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo (SP).

O partido adotou justamente a expressão “Lula: onde tudo começou” para convocar a militância. O local que ajudou a projetar o sindicalista para a política nacional foi escolhido para receber, décadas depois, o candidato que tenta conquistar novamente a Presidência da República. O evento marcou também o primeiro dia em que a legislação eleitoral permitiu oficialmente a realização de campanha nas ruas e na internet para as eleições de 2026.

A mobilização levou caravanas de diferentes estados ao ABC paulista e reuniu uma estimativa entre 20 mil e 30 mil pessoas. No palco, Lula esteve acompanhado do vice-presidente Geraldo Alckmin, que novamente integrou sua chapa, além da primeira-dama Janja da Silva e de aliados políticos. O ato contou ainda com a participação de nomes como Fernando Haddad, Simone Tebet e Marina Silva, reforçando a estratégia de reunir diferentes correntes do campo político que apoiam a candidatura.

“O Brasil pronto pra mais”

O slogan escolhido para a nova campanha —“O Brasil pronto pra mais”— procura apresentar a disputa como uma continuidade do projeto político iniciado em 2023, ao mesmo tempo em que estabelece uma conexão direta com a trajetória construída nas últimas décadas. Durante o discurso, Lula voltou a destacar temas como soberania nacional, desenvolvimento econômico, educação e capacidade do Brasil de controlar e agregar valor às suas riquezas naturais. Ao falar sobre minerais críticos, defendeu que o país não se limite à exportação de matéria-prima, mas desenvolva conhecimento e tecnologia para transformar esses recursos em produtos de maior valor agregado.

No Estádio 1º de Maio, onde um dia o sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva começou a ganhar projeção nacional, o presidente Lula abriu oficialmente mais uma disputa eleitoral.

Foto: Ricardo Stuckert – 16.08.2026 – Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante o lançamento oficial de sua campanha no Estádio da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo (SP).
Foto: Ricardo Stuckert

Na disputa pela Presidência da República nas eleições de 2026, Lula (PT) concorre com outros 11 candidatos: Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo), Renan Santos (Missão), Escritor Augusto Cury (Avante), Clariana Barão (DC), Edmilson Costa (PCB), Hertz Dias (PSTU), Leonardo Avalanche (PRTB), Rui Costa Pimenta (PCO) e Veterinário Wilson Grassi (Democrata). Ao todo, são 12 candidaturas na corrida presidencial.

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