in , , , , , ,

Wellington Damasceno destaca redução da jornada, reindustrialização e papel do ABC em entrevista ao Jornal Divulgação Exata

Presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC fala sobre os desafios da nova gestão, participação política dos trabalhadores, modernização da indústria e os caminhos para fortalecer a economia da região

O Jornal Divulgação Exata entrevistou Wellington Damasceno, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC (SMABC), que está à frente da 24ª gestão da entidade, no triênio 2026–2029. Na conversa, o dirigente abordou os principais desafios do movimento sindical, as pautas que devem ganhar espaço nas eleições de 2026, a redução da jornada de trabalho, a modernização do parque industrial do Grande ABC e a influência histórica da região no cenário político nacional.

Eleito com 97% dos votos, em uma eleição que registrou quórum superior a 85%, Damasceno avalia que o resultado representa uma demonstração de confiança da categoria, mas também amplia a responsabilidade da nova gestão. Entre as prioridades está a manutenção de uma atuação próxima aos trabalhadores e a preservação da identidade do sindicato como uma entidade de “chão de fábrica”, presente nos locais de trabalho.

Crédito: Adonis Guerra

Segundo o presidente, o desafio da gestão também passa por acompanhar as transformações que vêm ocorrendo no mundo do trabalho. Além das transições energética e tecnológica, ele destaca uma mudança geracional nas fábricas, com a chegada de profissionais que cresceram em um ambiente marcado pela conectividade e por novas formas de relacionamento com o trabalho.

Para Damasceno, o sindicato precisa estar preparado para compreender essas mudanças, ouvir as novas demandas e, ao mesmo tempo, manter a representação daqueles que já possuem uma trajetória mais longa na categoria. A capacidade de formular e inovar políticas sindicais também é apontada como fundamental para manter o SMABC como referência.

Sindicato e participação política

Outro tema abordado na entrevista foi o papel do movimento sindical na política brasileira. Para Damasceno, a atuação sindical não deve se limitar às negociações trabalhistas, uma vez que decisões tomadas pelos governos têm impacto direto sobre a vida da população.

O dirigente defende que o sindicato deve ouvir sua base, identificar necessidades e expectativas e apresentar aos candidatos propostas que representem os interesses da classe trabalhadora. Também considera fundamental ampliar o diálogo sobre a importância do voto e da escolha de representantes comprometidos com essas pautas.

Na avaliação de Damasceno, conhecer o histórico e as propostas dos candidatos é parte essencial do processo eleitoral. Para ele, a participação política deve ser compreendida como um compromisso de longo prazo, considerando que deputados e governantes possuem mandatos de quatro anos, enquanto senadores permanecem oito anos no cargo.

O presidente do SMABC também destaca a necessidade de o movimento sindical participar da formulação de políticas públicas e apresentar suas propostas aos governantes, fortalecendo o diálogo entre a representação dos trabalhadores e o poder público.

Redução da jornada e fim da escala 6×1

Entre os principais temas da agenda sindical está a redução da jornada de trabalho sem redução de salários e o fim da escala 6×1. Damasceno afirma que a defesa da redução da jornada faz parte da trajetória histórica do movimento sindical e que experiências existentes dentro da própria categoria demonstram a possibilidade de adoção de jornadas menores.

Ele argumenta que os avanços tecnológicos registrados desde a Constituição de 1988 aumentaram significativamente a produtividade. Robótica, digitalização, inteligência artificial e novas ferramentas tecnológicas transformaram o ambiente de trabalho, enquanto a jornada semanal permaneceu em 44 horas.

Na visão do dirigente, parte dos ganhos obtidos com o aumento da produtividade precisa ser revertida em benefícios para quem trabalha. A redução da jornada, segundo ele, poderia proporcionar mais tempo para convivência familiar, lazer, cultura, esporte e qualificação profissional.

Damasceno também aponta possíveis efeitos positivos para as empresas, como a redução de afastamentos e o aumento da produtividade decorrente de trabalhadores mais descansados e qualificados. Para a sociedade, ele cita ainda possíveis impactos sobre o consumo, os custos previdenciários e a produtividade nacional.

Outro argumento apresentado pelo presidente do sindicato é a necessidade de estabelecer condições mais equilibradas de concorrência entre empresas de diferentes regiões. Segundo ele, enquanto algumas empresas já trabalham com jornadas de 40 horas, outras permanecem com 44 horas semanais, criando diferenças entre parques industriais que disputam o mesmo mercado.

Pautas para as eleições de 2026

Com o calendário eleitoral de 2026 no horizonte, Damasceno aponta uma série de temas que devem estar no centro das discussões. Além do fim da escala 6×1 e da redução da jornada, ele destaca a questão tributária e a ampliação das faixas de isenção do Imposto de Renda.

A Participação nos Lucros e Resultados (PLR) também aparece entre as reivindicações. Para o dirigente, a ampliação da faixa de isenção sobre esses valores poderia preservar uma parcela maior da renda recebida pelos trabalhadores.

A igualdade entre homens e mulheres no mercado de trabalho é outra pauta destacada. Além da igualdade salarial, Damasceno defende igualdade de oportunidades no acesso e no desenvolvimento profissional.

O combate ao feminicídio e à violência contra a mulher também é apontado como uma questão que precisa ser incorporada de maneira permanente à atuação sindical e ao cotidiano dos locais de trabalho.

Reindustrialização como estratégia para o ABC

A recuperação e modernização da indústria aparecem como outro eixo central da entrevista. Damasceno defende o avanço da política industrial brasileira e cita o Nova Indústria Brasil como uma iniciativa capaz de integrar diferentes setores estratégicos.

Na avaliação do dirigente, áreas como saúde, energia, mobilidade, construção civil e defesa podem contribuir para ampliar a capacidade produtiva nacional, gerar empregos qualificados e fortalecer a soberania econômica.

Para o ABC, entretanto, ele considera necessário um olhar específico. A região possui um parque industrial consolidado, mas parte das empresas enfrenta o desafio de atualizar tecnologias e processos produtivos.

Por isso, Damasceno defende políticas diferenciadas para regiões industriais maduras, como o ABC, Osasco, Guarulhos, São Paulo e Rio de Janeiro. Segundo ele, não é possível aplicar a mesma estratégia a regiões com diferentes níveis de industrialização.

A modernização tecnológica, nesse cenário, deve estar acompanhada da qualificação profissional. A proposta é preparar os profissionais para ocupar funções mais especializadas, com maior produtividade e melhores salários.

Transição energética abre novas oportunidades

A transição energética também é apontada como uma oportunidade para o país e para a indústria brasileira. Damasceno destaca o potencial nacional em áreas como biocombustíveis, preservação ambiental e desenvolvimento de alternativas para os diferentes modais de transporte.

Para o dirigente, o processo de descarbonização pode abrir espaço para uma nova etapa de industrialização, associando inovação tecnológica, qualificação profissional, geração de empregos de qualidade e crescimento econômico.

O desafio, segundo ele, é transformar as vantagens naturais e industriais do Brasil em políticas capazes de gerar desenvolvimento e fortalecer a cadeia produtiva nacional.

A influência histórica do Grande ABC

Ao falar sobre o papel político da região, Wellington Damasceno afirma que o Grande ABC continua tendo capacidade de influenciar debates e decisões de alcance nacional.

Ele lembra a importância das grandes greves dos anos 1970 e 1980, que, além das reivindicações por melhores salários e condições de trabalho, também representaram uma frente de enfrentamento ao regime militar e de defesa da democracia.

Na avaliação do presidente do SMABC, essa tradição permanece presente. O ABC é apresentado como uma região marcada pela inovação, pela resistência e pela capacidade de produzir experiências que ultrapassam os limites dos municípios que compõem a região.

Damasceno cita, entre os exemplos, iniciativas relacionadas às políticas industriais, gestão pública, saúde e preservação ambiental, que podem servir de referência para outras regiões do país.

Para ele, a combinação entre tradição industrial, organização sindical, capacidade de inovação e mobilização social mantém o Grande ABC em uma posição estratégica no debate nacional.

Um novo ciclo para a indústria e para o trabalho

Ao longo da entrevista ao Jornal Divulgação Exata, Wellington Damasceno apresentou uma visão de futuro baseada na combinação entre desenvolvimento industrial, inovação tecnológica, qualificação profissional e fortalecimento da representação sindical.

Para o presidente do SMABC, os próximos anos serão marcados por transformações profundas no mercado de trabalho e na indústria. Nesse cenário, a capacidade de adaptação das entidades sindicais, das empresas e do poder público será determinante para garantir que os avanços tecnológicos sejam acompanhados pela geração de empregos de qualidade e pela melhoria das condições de vida.

A entrevista também evidencia a intenção da nova gestão de manter o sindicato próximo da categoria, ampliar sua participação no debate público e defender políticas que, na avaliação da entidade, possam fortalecer tanto os trabalhadores quanto a capacidade produtiva do país.

ENTREVISTA EXCLUSIVA | JORNAL DIVULGAÇÃO EXATA
Da Redação | Jornal Divulgação Exata
Foto: Adonis Guerra

Iniciativa pioneira no País de autoria de Fuzari, Lei do Cordão de Girassol completa 5 anos promovendo inclusão e respeito