Por Paulo Serra
Há um efeito da polarização política que raramente é discutido, mas que talvez seja um dos mais perversos quando o futuro está em jogo. Esse fenômeno nos impede de debater os problemas que realmente interferem na vida das pessoas e que, muitas vezes, produzem consequências devastadoras. Refiro-me ao avanço das apostas esportivas.
O tema ganhou força nos últimos meses, especialmente durante grandes eventos esportivos, quando transmissões passaram a ser dominadas por propagandas de plataformas de apostas. Não se trata apenas de uma discussão sobre publicidade, mas de um debate urgente e necessário sobre seus impactos sociais.
Especialistas alertam para o crescimento da dependência em jogos de azar, sobretudo entre jovens, idosos e pessoas de baixa renda. Estudos apontam que uma parcela significativa do endividamento das famílias brasileiras já possui relação direta ou indireta com apostas esportivas. Mais do que uma questão econômica, estamos diante de um novo problema de saúde pública.
O sonho do dinheiro fácil, alimentado por campanhas de marketing agressivas e pela participação constante de influenciadores digitais e atletas, cria uma ilusão perigosa. Para muitos brasileiros, apostar deixa de ser entretenimento e passa a representar uma falsa esperança de solução para dificuldades financeiras. O resultado, na maioria das vezes, é frustração, prejuízo e mais dívidas.
Os jogos de azar atuam diretamente sobre o sistema de recompensa do cérebro. Assim, aquilo que começa como uma simples diversão pode evoluir rapidamente para um transtorno de dependência. O indivíduo perde a capacidade de controlar o tempo e o dinheiro investidos, mesmo diante de perdas expressivas.
O impacto não se restringe ao aspecto financeiro. O adoecimento mental decorrente desse processo pode desencadear quadros severos de ansiedade e depressão. Em situações extremas, há registros de pessoas que chegaram ao suicídio após acumularem dívidas impagáveis relacionadas às apostas.
Isso não significa demonizar o setor ou defender proibições simplistas. O caminho mais responsável passa por uma regulamentação séria e eficiente. O Brasil precisa discutir limites para a publicidade das apostas, mecanismos de fiscalização, controle rigoroso da atuação das plataformas, transparência nas operações, campanhas permanentes de conscientização e ampliação das políticas de prevenção e tratamento da ludopatia, a dependência em jogos.
Diversos países já avançaram nessa discussão. No Brasil, entretanto, ainda caminhamos lentamente. Parte disso ocorre porque grande parcela da energia política nacional é consumida por disputas permanentes que geram engajamento nas redes sociais, mas pouco contribuem para a solução de problemas concretos.
A pessoa que perdeu o controle financeiro por causa das apostas online não está preocupada com quem venceu o último embate político na internet. A família que viu um filho ou um parente mergulhar nesse vício busca proteção, informação e políticas públicas capazes de oferecer respostas efetivas.
É justamente para isso que existe a política. Governar não significa alimentar conflitos, mas enfrentar desafios reais com responsabilidade e compromisso. A regulamentação das apostas esportivas é um desses desafios.
Enquanto o debate público permanece preso à guerra permanente entre extremos, problemas silenciosos continuam avançando, produzindo vítimas e deixando rastros de destruição.
Ao meu ver, esse é um dos maiores prejuízos da polarização. Ela não apenas divide o país: ela distrai a sociedade das questões que exigem atenção imediata. E um Brasil distraído demora mais para enfrentar ameaças à saúde mental e à segurança econômica de sua população.
Paulo Serra é especialista em Gestão Governamental e Políticas Públicas pela Escola Paulista de Direito e em Financiamento de Infraestrutura, Regulação e Gestão de Parcerias Público-Privadas (PPPs) pela Universidade de Harvard. Cursou Economia na Universidade de São Paulo e é graduado em Direito pela Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo. Professor universitário, é 1º vice-presidente nacional do Partido da Social Democracia Brasileira e presidente do diretório estadual do partido em São Paulo. Foi prefeito de Santo André entre 2017 e 2024.


